ENTREVISTA - MARKY RAMONE - VOCÊ É ROCK !!

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ENTREVISTA - MARKY RAMONE

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Entrevista: Marky Ramone, o punk e o povo 
  
O maior interesse de Marc Bell é manter vivo o legado da banda com a qual garantiu seu lugar na história (e no Hall da Fama) do rock: o Ramones. Mas mesmo antes de virar Marky Ramone em 1978 o baterista já era uma peça fundamental do punk nova-iorquino, tocando com Richard Hell & The Voidoids no seminal álbum de estreia do grupo, “Blank Generation” e com os Backstreet Boys de Jayne County.

Aproveitamos que Marky passou pelo Brasil semana passada para mais uma rodada de shows – a segunda esse ano – para conversar com ele sobre esse passado icônico do punk rock e futuros possíveis na música e na política – e em ambos, por quê não? Confira abaixo nosso bate-papo, que foi de Jimmy Carter a João Gordo, passando por cachorros vestindo agasalhos do Ramones.

Você chegou ontem, certo? Teve algum tempo para descansar desde então?
MR:
Não, eu toquei em uma festa fechada ontem, daí saí para comer, voltei para o hotel e tive que fazer mais coisas aqui.

E está se divertindo por enquanto?
MR:
Com certeza, no Brasil definitivamente.

Quando conversamos ano passado você disse que estava com um livro 90% concluído, e queria lançá-lo esse ano...
MR:
Está pronto. Terminei ele.

E quando ele sai?
MR:
Sai na América dia 13 de janeiro, finalmente.

Você também disse que estava decepcionado com o trailer do filme “CBGB”, mas ainda não tinha visto o filme...
MR:
Eu estava certo, porque o filme era ruim.

Não gostou nem um pouco?
MR:
Ugh (ri). Você tem que ver, é engraçado. Não é nem... Quer dizer, eu assisti duas vezes para dar uma segunda chance, e era bem ruim.

Existe algum filme que retrate melhor o que foi o punk?
MR:
Não sei, quando você faz filmes assim, como o filme do The Runaways, ou o filme do CBGB, muitas vezes os detalhes não estão certos. Sabe, muitos diretores e produtores acham que sabem o que realmente rolou, mas eles não estavam lá, então eles apenas vão em frente e fazem o filme e quando você vai ver ficou bem ruim.

Se alguém te chamasse para ser consultor de um projeto desse tipo, você aceitaria?
MR:
Depende do filme.

Tipo uma história do Ramones, ou do punk em Nova York em geral...
MR:
Dependeria do produtor, dependeria de quem mais estaria envolvido, porque eu vou saber quem são as pessoas envolvidas. Porque muita gente pega carona com o Ramones e eles nem estavam lá, não gravaram nos primórdios. Então você tem que garantir que o diretor e os produtores saibam, com antecedência, o que vão fazer e quem vão escolher para cooperar com eles.

Você já disse que seu maior interesse é manter a música dos Ramones viva.
MR:
Ah sim, definitivamente.

Qual você acha que é o maior legado da banda?
MR:
Bom, a influência em outras bandas e a longevidade do grupo, desde 1976, quando o primeiro álbum saiu. E você pode ouvi-la no Green Day, Offspring, Rancid, Joan Jett, Billy Idol… Você pode ouvir no Clash, no Sex Pistols… Em muitas bandas ao redor do mundo, então sabe, tudo isso é legado.

A influência do punk foi muito além da música. Um dos exemplos mais nítidos foi a apropriação do estilo pela moda, as próprias camisetas do Ramones que você vê literalmente em tudo que é lugar...
MR:
É, é americano... É o selo do Presidente. E eu a vi em todos os países (dá risada). E às vezes eu me pergunto se eles sequer conhecem a música.

Eu às vezes me pergunto isso também, até porque você vê desde recém-nascidos até gente com mais de 80 anos usando elas...
MR:
Até cachorros vestem elas em agasalhos (dá risada).

Como você vê essa comercialização da música e do que ela representa?
MR:
Eventualmente chega a um ponto que não tem nada que você possa fazer a respeito. As pessoas gostam, elas vão comprar. Então você não está enfiando goela abaixo nelas, você só está dando uma escolha para elas. Comprar uma camiseta do Ramones, um disco do Ramones, isso é escolha delas. É assim que a vida é, são negócios, sabe?

Então você acha que isso é algo inevitável na música?
MR:
Sim, sim. Porque no minuto que você assina seu nome em um contrato de gravação, você faz merchandise, camisetas. Aí você lança vídeos, um visual para que seus fãs vejam. Você faz outras coisas associadas com os negócios da música. Então é muito como um polvo, tem tantos tentáculos que apenas se expande.

A história e o papel do punk foi diferente em cada lugar. Aqui no Brasil, talvez por ter um cunho mais social acabou gerando uma cena cheia de códigos de ética e conduta. Em Nova York ele parecia mais ligado à expressão pessoal, o que talvez não criasse um movimento tão radical. Foi assim mesmo ou existiam “regras”, por assim dizer?
MR:
Estávamos mal naquela época na cidade de Nova York, financeiramente. Havia greves, havia rebeliões, havia brigas de gangue, havia gente sem teto nas ruas... Por sorte tínhamos o CBGB’s para tocar porque a maioria dos clubes não queria que tocassem punk rock lá. Então teoricamente também estávamos envolvidos, inesperadamente, nesse meio. Porque a cidade não tinha dinheiro, não tinha emprego em lugar nenhum lá, então tivemos sorte de tocar e começar a ter fãs. Eu estava no Richard Hell & The Voidoids antes de entrar no Ramones, mas nós todos meio que... Sabe, nos anos 70 aconteciam greves de gasolina, você não conseguia nem comprar gasolina para o seu carro. Estava morto, sabe. Então o punk de Nova York era principalmente, nesse momento, para fazer as pessoas se divertirem, esquecerem os problemas, sabe o que eu quero dizer?

Sim, entendo. É que sabe o João Gordo, do Ratos de Porão?
MR:
Sim.

Então, o João sempre teve um problema de ser chamado de “vendido” basicamente porque ele ganha dinheiro com o que faz, falam que ele está “traindo o movimento” apesar de ser admirável que ele faça sucesso especialmente com esse tipo de música. Esse tipo de coisa acontece na cena americana?
MR:
Não, mas não acho que ele seja vendido, acho que ele trabalhou muito duro, fez muitas turnês... Sabe, ele é esperto, e as pessoas gostaram dele. Ele representava uma certa cultura do país e as pessoas gostaram do que ele estava fazendo. O que ele podia ter feito? Conforme a vida vai passando, você progride no que está fazendo, então seja lá o que ele tenha conseguido fazer, é ótimo. Prefiro ver ele nesse nível do que um político meia boca qualquer que mente para todo mundo e não diz a verdade e não faz nada pelo país, sabe.

Em termos de falar a verdade ele realmente fez mais do que provavelmente todos os políticos. Mas essas críticas vêm muito da própria cena punk...
MR:
Bom, eles estão errados então. Não está certo. Eles deviam ficar felizes que um cara como ele está lá, tendo alguma influência no país, e está do lado deles.

Concordo. Mas é difícil explicar para as pessoas porque elas são bem tradicionalistas nesse aspecto...
MR:
Ah, então eles têm que mudar.

Bom, eu espero que com o tempo isso melhore...
MR:
Talvez ele concorra a presidente do país.

Nossa, isso seria incrível. Eu votaria nele.
MR:
Ah, eu também, se morasse aqui.

O punk começou com a ideia de DIY, de se fazer ouvido sem ter que ser escolhido pela indústria. Você vê um pouco desse espírito na utilização da internet para divulgação de novos artistas?
MR:
Sim, é só um jeito diferente de fazer agora. As bandas definitivamente podem alcançar mais gente por causa da internet. Nos anos 70 nós só tínhamos jornais (dá risada). Agora você tem sites, tem Instagram, tem Twitter... Sabe, tem tantas coisas, Facebook...

Há quem diga que esse acesso fácil diminui o valor da música. O que você diria sobre isso?
MR:
Música está vendendo muito mais que nunca, quer dizer, há tantas categorias diferentes: tem heavy metal, tem punk, tem jazz, blues... Tem rock n roll, tem eletrônica, tem hip hop, tem rap... Tem tanta coisa por aí que você pode escolher, então há bem mais música agora.

Se adaptar a novas formas de distribuição talvez seja inevitável, mas e musicalmente? É possível inovar no punk em 2014? Ou de modo geral?
MR:
Acho que os Ramones fecharam. Acho que depois do Ramones, muito do punk rock usou a fundação do Ramones e colocaram sua própria virada nela. Mas quem sabe? Nós nunca saberemos, porque pode haver toda uma nova geração que talvez surja com uma banda tão boa quanto o Ramones.

Você esteve no punk desde o começo. Antes do Ramones você tocou com Richard Hell, Jayne County... E a sua geração influenciou todas as posteriores rompendo com tudo que vinha acontecendo. Quem influenciou você?
MR:
Bom, obviamente os Beatles, o The Who, The Kinks, a Parede de Som de Phil Spector, os Beach Boys... Basicamente surf music. Eu também gostava de muitas das coisas de doo-wop, como Dion and the Belmonts. Eu gostava... Deixa eu ver quem mais está no radar aqui... Eu gostava de uma banda chamada Paul Revere & the Raiders, gostava de The Dave Clark Five... Tem tantos.

E fora da música? Você disse que Nova York estava passando por um momento ruim nos anos 70, imagino que não fosse uma época fácil para achar modelos ideais. Quem você considerava uma inspiração?
MR:
Fora da música? O presidente na época, Jimmy Carter. Ele é muito democrata, e ele realmente era a favor do povo. Aí veio o Reagan e foi quando, acho eu, as coisas começaram a ficar ruins.

Quando o Reagan chegou?
MR:
Sim, aí o Bush... Sabe, eu não gosto de conservadorismo, nem um pouco.

E você acha que as coisas melhoraram desde que o Obama assumiu?
MR:
Bom, sabe, temos um Senado Republicano, e eles não permitem que ele faça nada. E o Obama é definitivamente muito melhor que o George W. Bush, mas você tem que ter um Senado que vá junto com você, que concorde com as coisas que você quer propor e mudar.

As eleições de meio mandato aconteceram recentemente e foi eleita uma maioria republicana de novo, certo?
MR:
Isso é ruim.

Mas por outro lado os Estados Unidos têm adotado uma postura mais progressista, como com o consumo de cannabis por exemplo. Você considera os EUA um país conservador?
MR:
As pessoas queriam cannabis, e ninguém tem como parar isso na verdade porque basicamente é uma coisa local para cada Estado, mas espero que o próximo presidente depois do Obama seja um democrata, provavelmente Hillary Clinton. Mas espero que não voltemos a era de Bush ou Reagan, porque tudo vai voltar para trás.

E Hillary parece uma boa alternativa?
MR:
Bom, não tem ninguém. Quem está lá? Eu realmente não quero ver outro Bush concorrendo à presidência. E eu não concordo com a forma de pensar ultraconservadora da ala de direita.

Aqui no Brasil estamos passando por um momento bem dividido politicamente, com uma corrente extremamente conservadora e um número cada vez maior de pessoas envolvidas em movimentos sociais...
MR:
Sim, você tem que [se envolver em movimentos sociais]. Quer dizer, você tem que pensar em todo mundo. Você não pode pensar apenas nos homens de negócios ricos, tem que pensar nas pessoas que precisam da ajuda [do governo]. Como Jimmy Carter. Ele foi presidente e agora constrói casas para as pessoas pobres na América, e ele está com 80 anos. Esse é um cara de verdade. 






Fonte: Tate Montenegro, TDM


 
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