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ENTREVISTA - LOU REED

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Arquivo: Entrevista Rolling Stone com Lou Reed
Nesta entrevista publicada em 4 de maio de 1989, o músico, que morreu no último domingo, 27, fala sobre o Velvet Underground, Andy Warhol e o então recém-lançado álbum New York
por David Fricke/ Tradução: Ligia Fonseca

Em 4 de maio de 1989, a Rolling Stone EUA publicou uma Entrevista Rolling Stone com Lou Reed na qual ele falou sobre o Velvet Underground, Andy Warhol e o então recém-lançado álbum New York. Leia abaixo

A interrupção começa no meio da primeira música. Sobre a guitarra metálica de "Romeo Had Juliette", a ode seca ao amor sob guerra que define o cenário e o tom para a suíte de apocalipse urbano New York, de Lou Reed, um tonto no camarote do Orpheum Theater em Boston fica gritando. "Que droga! Toca rock!" Ele quer sucessos; Reed não está nem aí. Está abrindo seu show de mais de duas hotas nesta noite apresentando New York de uma maneira adequada a seu conteúdo urgente e estrutura narrativa, como um ciclo completo de músicas, todas as 14 em ordem, do começo ao fim.

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O palhaço quase arruína "Halloween Parade", um hino agridoce aos corpos e almas perdidos para a Aids, com seu falatório. Neste momento, Reed, que nunca se rebaixou, interrompe o show, mira e dispara.

"Isto é rock. É meu rock", Reed dispara com um desfrute ácido. "Se você não gosta do meu rock, por que não vai embora? Pede um reembolso, imbecil”. Silêncio. O tonto já era.

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Ninguém coloca um importunador em seu lugar melhor do que Lou Reed. Claro, ninguém faz Lou Reed melhor do que Lou Reed. Ele mesmo disse isso em 1978 no disco ao vivo apropriadamente chamado de Take No Prisoners [“Não Poupe Ninguém”]: "Faço Lou Reed melhor do que ninguém". Uma década antes, ele havia definido o padrão para versos elaborados sobre sabedoria das ruas, humor negro nas letras, ruídos de vanguarda e pulsação primordial de rock com o Velvet Underground, provavelmente a banda norte-americana mais influente do rock nos últimos 25 anos.

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Os discípulos e descendentes de Reed têm várias idades, sexos e temperamentos, de David Bowie, Ric Ocasek e Chrissie Hynde ao U2, Sonic Youth e R.E.M. No entanto, ele continua imbatível em seu próprio jogo. Também está no auge de sua potência. New York é seu melhor álbum desde o atormentador documento de 1982 sobre amor e obsessão The Blue Mask; também é o mais próximo que ele realmente chegou de recapturar a magia rarefeita do Velvet em disco desde o final da banda. Em New York, ele dramatiza o apodrecimento físico e moral da Big Apple com a mesma sagacidade corrosiva, linguagem mordaz e humanidade disfarçada com a qual mostrou o vício em drogas em "Heroin", o comportamento sexual errante em "Walk on the Wild Side" e, na épica "Street Hassle", a fragilidade da esperança e do amor entre ruínas.

Nesta noite no Orpheum, parte de uma turnê de primavera que inclui uma semana com ingressos esgotados na Broadway, Reed dá alma aos personagens e às crises do disco com a indignação em lenta ebulição de seu canto inconfundivelmente impassível e a conversa vibrante entre sua guitarra e a de Mike Rathke, que lembra o primitivismo inebriante dos diálogos de seis cordas de Reed com Sterling Morrison no Velvet. "Dime Store Mystery", seu adeus ao empresário original e mentor do Velvet, Andy Warhol, é uma evocação deliberada e dinâmica do estilo singular do grupo de canções artísticas dissonantes e certeiras – o som agourento e serrado do contrabaixo elétrico de Rob Wasserman, à la John Cale; a bateria de dança fantasmagórica de Robert Medici, à la Maureen Tucker; a própria distorção incendiária da guitarra de Reed; o coda com feedback uivante. Aos 47 anos, uma idade na qual muitos de seus contemporâneos estão ensaiando para a aposentadoria, Lou Reed permanece fiel aos extremos sônicos e à visão descompromissada do Velvet Underground.

"Fiz o que sempre faço”, Reed diz sobre as músicas, o som e o sentimento de New York entre goles de água com gás e baforadas no cigarro antes da passagem de som. “A única mudança foi – e sei que soa clichê – mas se você pratica algo repetidamente, supostamente fica melhor naquilo."

Os fãs concordam. New York é o disco mais bem-sucedido de Reed desde o apogeu de Transformer (que gerou seu único single Top 10, "Walk on the Wild Side"), Rock n Roll Animal e Sally Can't Dance, em meados dos anos 70. Houve alguns quase acertos desde então, como o power rock fácil de New Sensations, de 1984, mas Reed insiste que seu interesse no sucesso pop comercial está abaixo de zero. “Fiquei completamente bem ajustado a ser uma figura cult", afirma.

O que lhe incomoda é o furor contínuo, 22 anos depois do lançamento do primeiro disco do Velvet Underground, quanto a seu estilo de compor e escolha de assuntos. Para o jovem Lou Reed, recém-saído da Universidade de Syracuse – onde dividia seu tempo entre cursos de redação criativa, estudos de poesia com Delmore Schwartz e uma série de bandas de bar no campus –, discussões francas sobre sexo, drogas e amor devastador não eram grande coisa na literatura séria. Se a música pop realmente era arte (uma grande premissa de meados dos anos 60), embalar essas discussões com guitarras elétricas e percussão tribal era a coisa mais lógica do mundo.

"Nunca, jamais, achei que as pessoas ficariam indignadas com o que eu fazia”, afirma. "Você podia ir à livraria do bairro e conseguir tudo aquilo”. Só que a versão de Reed para o Grande Romance Americano, agora com mais de 25 álbuns de duração, tem o peso da observação pessoal precisa e, durante um período particularmente animado nos anos 70, verdade autobiográfica (hoje seu pior vício é fumar – “o próximo a ser eliminado”, jura).

Com New York no Top 50, a turnê atraindo públicos extasiados e alta expectativa para a estreia em novembro de Songs for Drella – o réquiem dramático de Reed e John Cale para Andy Warhol (recentemente exibida pela primeira vez como uma obra em andamento em Nova York) – Reed se sentou com a Rolling Stone EUA para conversas profundas em Boston e Washington, combinadas aqui com uma sessão que aconteceu há alguns meses em Nova York. Com óculos de aro redondo que lhe dão um ar levemente profissional, ele falou sobre suas composições, amor pelo rhythm & blues dos anos 50, a influência espiritual e artística de Andy Warhol, a música e a mística do Velvet Underground, e sobre a elaboração, e a mensagem, de New York.

"É interessante quando se está por aí há tanto tempo quanto eu e se vê essas coisas acontecerem”, Reed observou quase no fim. "É como, você quer ser sério? Sobre sua própria vida? E se não quiser, há discos de festa, que são muito divertidos. Só que estou interessado em outra coisa. Não estou dizendo que é melhor do que o resto. É só diferente.

"Tenho mais algumas palavras à minha disposição, e não posso ignorar isso."

Quando você recentemente induziu Dion ao Hall da Fama do Rock, lembrou em seu discurso de estudar geometria em casa em Long Island nos anos 50 enquanto ouvia grupos vocais de R&B como The Paragons, The Diablos e The Jesters no rádio. A maioria das pessoas não associa você ou seus discos com este tipo de soul antigo das ruas.
Bom, elas podem não me comparar também com alguém que esteja tentando entender geometria sólida, mas escute o final de "Halloween Parade". Jeffrey [Lesser], o engenheiro, fez aquele ótimo falseto agudo. Todas as minhas partes vocais de apoio se baseiam nesse tipo de música.

 
 
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